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História da Literatura Brasileira (Pós-Modernismo e os Sobreviventes)

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O presente artigo representará, ao leitor, através de breves reflexões baseadas nas novas vertentes, movimentos e idéias do século XX – além de determinados coeficientes, infelizmente, políticos – o entender do o que aconteceu com a Literatura Brasileira. Há sobreviventes do cenário caótico – literariamente falando – e que, não obstante, por fatores que contradizem a própria estrutura daquilo que se compreendem como a produção literária, tais escritores muitas vezes são esquecidos e apagados em nossa história. Lembremos, antes de aprofundarmos a questão central, os bons e persistentes escritores (Diferentemente dos artigos anteriores, não me concentrei em uma cronologia explícita);

Na História da Literatura Brasileira, pudemos perceber que a quantidade do sentimento de crescimento literário foi durante séculos; todos devem ser – e como acredito que fora – catalogado com o devido respeito para com seu contexto, seu foco de interesse e dentro das suas particularidades mais sinceras na construção lírica. Desde os estilos mais gongóricos, pitoresco ou romântico, até parnasiano ou simbolista ao extremo, caracterizam, por excelência, uma linha de evolução (atento-me a este termo que pode parecer ligado a uma corrente positivista; não é o caso) dissemelhante e ao mesmo tempo tênue.

Mas nem sempre a Literatura Brasileira foi autenticamente nacional, assim como o quiseram os românticos, ao aprofundarem o nativismo e o sentimento indianista, e os modernistas com os intuitos de inovações efêmeras em lirismo e imensas em altercações de regras; e quem dirá, nem precisando ser um bom entendedor, de que até mesmo os meios e as finalidades propostas por ambas as vertentes não contiveram respaldos externos, senão as próprias idéias que se afloraram através do Iluminismo e Positivismo europeu?

Basta essa razão para constatar que nem sempre temos de nos contentar com aquilo que nos é apresentado, diante de nossos olhos. É preciso ir além, a fim de enxergar suas origens e seus nexos. Fora o fato de não ser oriundo do Brasil, o autor que mais apresentou esses fatores, demonstrando as vertentes, ao menos um pouco de suas ligações internas e externas para com os aspectos e idéias filosóficas, além de evidenciá-las em um traçado temporal e histórico impecável, foi ninguém menos do que Otto Maria Carpeaux, em sua obra monumental intitulada “História da Literatura Ocidental”. Publicada em 1947, no Brasil, contendo hoje ao todo 8 (oito) volumes, é nela que Otto manifestou todo o seu conhecimento histórico, e cultura filosófica, realizando breves ligações com a Literatura.

Essa obra, em específica, realiza um traçado desde os tempos Helenísticos da História, pretendendo relacioná-los no que tange as literaturas contemporâneas do autor. A lista de referências é de quantidade absurda; mas isso se dá pelo interesse vocacional e sincero que Carpeaux tinha para com essa obra, portanto, não foram – como alguns outros escritores mais medíocres – meras citações, relações e referências vagas, no intuito de encher a obra. Nesse ponto Carpeaux consegue efetuar uma unidade de pensamento sobre cada autor e vertente sem nenhum resquício de pernosticismo. Sem mencionar, também, os breves estudos bibliográficos contidos – e que posteriormente seriam aprofundados, tornando-se livros separados – Carpeaux ainda procede, através delas, com estudos a respeito de História da Música, roteiros para programas radiofônicos e até mesmo roteiros cinematográficos.

Em importantes trechos da obra têm-se informações muito profundas, mas, o que se torna interessante quando relacionadoao Brasil é que Carpeaux entendia de que ele deveria valorizar a cultura Nacional que o recebeu; isto é, também, Otto Maria Carpeaux não foi brasileiro, mas tornou-se a partir do momento em que efetuou colaborações tão importantes para a sociedade brasileira (“Sociedade Brasileira” no sentido mais lato possível; seja de Estudos ou não). Podemos dizer que apenas’ com a magnífica obra História da Literatura Ocidental, sendo publicada inicialmente no Brasil, já nos concede uma honra nacional inimaginável – isso sem enunciar todos os estudos e obras realizadas unicamente a partir da literatura brasileira. No entanto, a grandeza de Carpeaux foi desprezada e jogada para segundo plano por praticamente toda a sua vida; ora desprezado, ora amedrontado para com as situações políticas.

Durante meados do Século XX, o mundo, e em especial a Europa, se viu diante de conflitos armados e políticos profundos que evidenciaram, por muito tempo, apenas seu futuro incerto. Carpeaux estivera no meio disso. Assumidamente Católico – depois de abandonar o Judaísmo – se deparou com dois grandes problemas em torno de 1930 e 1940: Comunismo Soviético e a Alemanha Nazista. Por essa razão, mais do que suficiente, junto com a esposa vieram para o Brasil em 1939, alterando seu nomeno mesmo mês em que se estourava a Segunda Guerra Mundial na Europa para que não fosse encontrado; instalaram-se, depois de desembarcarem no Paraná, em São Paulo.

A vida no Brasil não foi nada fácil. Logo após de vender boa parte de seus pertences (livros, obras de arte) para conseguir sobreviver, teve de se submeter à ideologia comunista – ao menos em sua aparência intelectual e moral – para que não perdesse o emprego que havia conquistado; quanto a isso, Carlos Heitor, muito próximo ao Carpeaux, dizia que ele, apesar de ter de se entregar as idéias comunistas – como, por exemplo, ter que mentir a respeito de ser contra única e exclusivamente aos Nazistas quando, na verdade, o era também dos Soviéticos – ainda “tinha coração católico [...] rezava escondido dos esquerdistas”. Em palavras do Filósofo Brasileiro Olavo de Carvalho, até Mauro Ventura, através de uma pesquisa na Áustria, confirmou alguns desses aspectos, evidenciando de que era necessário entender de que Carpeaux, na verdade, tratava-se de um Ultra-Conservador.

                   “O fim da vida do Carpeaux foi muito melancólico porque depois de muitos anos dessa coisa, depois do golpe de 64 que foi quando ele caiu na dependência do Partido (comunista; ênfase do autor), ele foi decaindo intelectualmente de uma maneira extraordinária. Você vê que os artigos dele vão ficando cada vez mais e mais insignificantes [...] Franklin de Oliveira, dizia que no leito de morte, Carpeaux chorava dizendo: joguei minha vida fora... é claro que não jogou. O que ele fez, o que tinha feito, é mais do que suficiente para justificar dez vidas, não uma [...] (Olavo de Carvalho, 2014).

Foi, durante muito tempo, esquecido nos livros de História da Literatura brasileira, sendo um homem que contribuiu tanto para a cultura nacional. Foi Otto Maria Carpeaux, um dos primeiros Brasileiros (e Não-Brasileiros) que sofreu, a partir das chulas aspirações e dicotomias políticas, o choque da realidade que ali se instaurava.

Dos sobreviventes ainda podemos dizer de que existe, no nosso século (XXI), escritores como ninguém menos do que Rodrigo Gurgel – que também é ensaísta e crítico literário. Em diversos relatos importantes através do novo meio de comunicação, a Internet, Gurgel passou a evidenciar diversas problemáticas da Literatura atual, juntamente com o filósofo Olavo de Carvalho.

Cito Gurgel como um dos sobreviventes, sem fazer a devida alusão para com outros contribuintes para o “re-engrandecimento” da literatura, por critérios de documentais e até temporais. Mas há de ser necessário – e muito bem informativo para o leitor – ter ciência dos demais escritores (lembrando-vos de que não necessita ser de nacionalidade Brasileira). Carlos Nadalin, Paulo Briguet, Yuri Vieira e Érico Nogueira, por exemplo, participaram – juntamente com Rodrigo Gurgel – no segundo grande encontro com Olavo de Carvalho, na Virgínia, Estados Unidos, já em 2015. No encontro – que está devidamente publicado na internet – podemos perceber de que, tais nomes e indivíduos que ali estavam, buscaram compreender os nexos problemáticos da literatura brasileira, a fim de almejar um realce básico para com a situação literária atual. Os quatro temas discutidos foram: “1) Descrição geral e história da deterioração da cultura brasileira, identificando os principais agentes e promotores da ignorância; 2) Transformações sofridas no idioma. Os métodos de alfabetização e de ensino, responsáveis pela alienação dos estudantes. A manipulação marxista-leninista nas escolas e universidades; 3) A literatura de hoje e a de meio século atrás. Degradação das inteligências individuais e da moral política; 4) Experiências culturais positivas. A vida inteligente no Brasil de hoje, ainda que exilada pela mídia e por outros atores sociais.

Pós-Modernismo Literário?

Não é normal uma decadência cultural tão profunda como esta a do Brasil. Já catalogamos, mesmo que vagamente, de que o intuito Modernista do século XX foi sem precedentes e até de certa forma sem escrúpulos. As novas “leis e formas” para o produzir lírico, como por exemplo o apelo gramatical fortíssimo sem a necessidade de interpretação interior, sem demora evidenciava-se uma clara dissolução para com a própria Literatura predecessora, fragmentando o nexo para com a realidade, suscitando o intuito único e exclusivo de inovação; há critérios – e até mesmo autores – que apontam a essência dessa conjuntura como apenas um resultado prático das idéias positivistas.

Talvez não haja como negar este aspecto que se mostra tão petulante. E, também, pode-nos servir de arcabouço histórico-literário para conseguirmos compreender de uma maneira mais ampla a situação atual. Não seria a idéia positivista a mesma que pretende ignorar e/ou excluir até mesmo os fundamentos do passado? Não seria, também, o intuito da República? Se compreendermos de que o movimento Modernista esteve intrinsecamente ligado para com os fundamentos e idéias da República, podemos dizer, sem medo de errar, que o Pós-Modernismo vive na literatura contemporânea como efeito de todos esses precedentes; isto é, o pós-modernismo, dentro da literatura pode ser classificado de resgate aos alicerces modernos com a única diferença de aplicação desprendida no que tange as regras anteriores.

Na medida em que estes novos fundamentos literários foram se incluindo, que deixam de lado assuntos elevados e de complexidades reais, por outro lado os assuntos mais levianos e medíocres passam a rodear o cenário da literatura; casos de problemas políticos banais e insignificantes, como “de qual gênero eu sou?”, passaram a ser até mesmo financiados. Da interferência político-ideológica, iniciada já nos fins do Século XX, mostra hoje as suas consequências; escritores de literatura, em sua grande maioria, interessados em escrever apenas sobre elementos partidários e não sobre o que se efetuou na sociedade e qual a relação dela para com o próprio autor. Não tem muito do que se esperar, pois, nem mesmo na linguística, os autores de hoje em dia, escrevem com consciência.

Sejamos sinceros. É infinitamente triste perceber que o nível da nossa literatura nacional, que obteve realces e engrandecimentos em boa parte de sua história, que obteve grandíssimos escritores que fortaleceram a cultura e serviram de respaldo histórico até como figuras excepcionais, esteja indo por água abaixo durante as últimas décadas; este cenário, concomitante para com a quase incapacidade de poder reverter esse processo em curto prazo, ocasiona ainda mais descrença para alguma mudança. No entanto, aos poucos, podemos ver pessoas bem intencionadas, grupos de indivíduos que pretendem restaurar e relembrar os fundamentos de nossa sociedade de estudo. De todo o modo, euacredito que somente o tempo nos mostrará o caminho certo, assim como se tem demonstrado por toda a História.


Por: Lucas Emmanuel Plaça

História da Literatura Brasileira (1900 - 1950)

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A Literatura no início da República; O Pré-Modernismo

Não é preciso expressar diversas vezes o quão instável o período Republicano foi, senão simplesmente pelo seu contexto quase interminável; ao atravessar praticamente um século de sua existência, resplandeceu um grande desfavor para com a literatura, sob os aspectos tão ou mais administrativos e políticos ao atingir a esfera do entusiasmo literário. Claro que as consequências não derivam única e exclusivamente do parâmetro político – assim como vimos em nossa compilação historiográfica nos artigos anteriores, dentro do alto realce inicial sobre a Colônia – entretanto, muitos dos conflitos sociais e econômicos, neste grande período de tempo, afloram-se através das diversas aspirações políticas.

Quem, em sua sã consciência, entenderá de que a Literatura não necessita de uma experiência interior e, como a tal, já inclusa numa esfera coletiva também? Nesse ponto, torna-se evidente de que as esferas externas, ou as categorias meramente coletivas, instigam o espírito dos escritores; sendo mais ou menos audaciosos por meio deste fator pouco nos importa no momento em questão. Basta, na verdade, saber que o contexto republicano influenciou em demasiado, não no sentido político – assim como demonstramos – mas circunstancialmente a literatura brasileira do século XX.

É por essas e outras razões que veremos embates fervorosos dentro da própria literatura. De início, temos basicamente dois grupos que podemos nomeá-los – sem nenhum receio aparente – em suas próprias esferas do desenvolvimento; 1- Conservadores 2- Renovadores; nada que, não obstante, possa nos prejudicar em matéria de documentação e na análise que procederemos.

De todo o modo, é preciso ressaltar que essas circunstâncias tal como resultariam posteriormente no Modernismo, ainda permaneciam parcialmente frustradas, pouco notórias e produtivas; em questão, tratamos do momento Pré-Moderno, cujas vertentes citadas acima não se regulam numa escola ou vertente literária restrita. Usualmente falando, das ambas as tendências, exclui-se de todas as formas a estética moderna propriamente dita que, por sua vez, só há indícios de sua realização décadas posteriores. O que permanece é a tradição parnasiana – em pequena parte romântica – e seus renovadores que almejavam uma espécie de harmonia com a herança interna ao mesmo tempo em que haveria de acrescentá-la algo a mais.

E como o terreno conjuntural derramava sobre a população uma instabilidade socioeconômica e política, nada mais a pensar a respeito da literatura senão sua própria exclamação em tais aspectos. As manifestações vanguardistas anteriores aos anos de 1920 não podem ser compreendidas na limitação da famosa “Semana de Arte Moderna”, de 1922. Foi um processo que, na verdade, alongou-se desde a queda do Império, em 1889, e fortalecido de maneira ininterrupta entre 1902 até 1922.

Cabe destacar aqui, no mínimo, três caraterísticas fundamentais desse processo. Ao longo dos anos, o prestígio já conquistado através do Parnasianismo (Realismo-Naturalismo), a sobrevivência do Simbolismo – agora resgatado por ambas vertentes já mencionadas – e no grande e meticuloso excesso das aspirações nacionalistas, concomitantemente com o pan-americanismo e o latino-americanismo; pode-se perceber um grande subterfúgio dessa última em alguns ideais da República Velha.

É claro que a abolição da escravatura, em tempos, fortaleceu profundamente a ala conservadora e renovadora, mas esta influência está atrelada, também, aos processos de imigração de São Paulo e Rio Grande do Sul que ao longo dos anos novas faces culturais vinham para ficar.

Aquele que merece um destaque especial é o famoso Augusto dos Anjos. Ele, no entanto, não pode ser encarado como parnasiano ou simbolista, pois, em sentido real, foi um herdeiro personalíssimo da poesia científico-filosófica. Sem a menor sombra de dúvida – e como suas mais lembradas obras – o “Eu” e “Monólogo de uma Sombra” são, in latu sensu, onde se pode facilmente encontrar a essência de seu pensamento; entende a condição humana em confronto com a natureza, onde existe a alegria possível – mas nem sempre à mercê do homem. É interessante como Augusto dos Anjos pode, ao mesmo tempo parecer um adepto do parnasianismo, como também parecer o maior oposto:

                    “[...] captada e expressa pelo homem através da arte, consiste essencialmente, na mais alta expressão da dor estética [...]” (Augusto dos Anjos, Poesia e Prosa. São Paulo, Ática, 1977, pp. 57).

A citação acima é, de fato, o ponto de partida de um vocabulário lotado de cientificismo e filosofia, cujo seu pessimismo extremo aflora-se de todas as formas, realizando-o poeticamente.

Também – e como de costume desse estilo – o autor é fortemente inspirado pelas noções de Beaudelaire e Schopenhauer e que, no entanto, não o impediu de se libertar dessas cogitações, para revelar em seus escritos a grande e imensidão ternura, afeto e compaixão para com a fé na justiça e na proteção divina. O aspecto pessimista e corrosivo, somado a depressão às aspirações Modernas, pode ser percebido em um seguinte trecho de “Eu”, cuja representação “muito moderna” não cai bem para seus ombros:

“Aí vem sujo, a coçar chagas plebeias,
                       Trazendo no deserto das idéias
                       O desespero endêmico do inferno,
                       Com a carta hirta, tatuada de fuligens
                       Esse mineiro doido das origens,
                       Que se chama o Filósofo Moderno!”.

Essa obra em específico, foi sua única a respeito de poesia; e como pode se enxergar facilmente, a melancolia se entrelaça junto às palavras que, no fundo, não são lá bem poéticas – como vômito, verme e outras referências aos males e ruindades do mundo.

Do intuito intelectual nessa obra, Augusto dos Anjos parece deixar bem claro suas aspirações, seus sentimentos pessimistas ao mesmo nível de embate com os parnasianos tradicionais em que consegue elevar o chulo e o “podre” para as mais altas produções líricas que uma obra pode conter.

Ainda no mesmo âmbito, temos outro escritor, autônomo por assim dizer. Lembra-se de Machado de Assis, catalogado no século anterior? Ele, junto a outros escritores poéticos e da prosa, favoreceu parcialmente a presença do Modernismo. Sendo um escritor quase que ilimitado em suas opções e interesses de formas, ainda publicando aquelas obras importantes neste século como, por exemplo, “Poesias Completas” (1901), “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires” (1908), pode-se dizer, também, de que a sua trajetória literária sobreviveu e persistiu diante as insistências que viriam em seguida (por esta razão Machado de Assis foi mais aprofundado no artigo anterior), porém, é inegável que suas qualidades influenciaram, posteriormente, ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade, Ciro dos Anjos e Graciliano Ramos.

Tivemos alguns escritores encaixados no pré-modernismo que não pretenderam praticar uma mudança drástica, assim como vimos. No entanto, aquele que mais preservou no sentido mais amplo possível, foi Xavier Marques. Diferentemente dos outros já citados, Xavier não conservou o intuito do parnasianismo. Muito mais além e profundamente o foi ao resgatar e dar continuidade ao Romantismo, o mesmo da década de 1830. Sua persistência notável pode ser encontrada em sua última obra, “As Voltas da Estrada”, publicada em 1930 – em pleno Modernismo.

A obra citada, em si, retrata os antecedentes imediatos da abolição da escravatura, seu contexto, e as consequências que esse ato revelou posteriormente a instauração da República. As situações ali escritas passam, temporalmente, da vida horrenda enquanto escravo, até o momento de obter a possibilidade de ascender-se socialmente. A narrativa dessa obra evoca um fim de século e o começo do seguinte sem ser propriamente um romance histórico.

Sua linguagem, meio que sobrevivente em tantas e diversificadas escolas e movimentos literários, permanecendo intrinsecamente romântica; A narrativa é alimentada pela intriga manifestada na idealização amorosa – quase que principalmente – e a tentativa de relacionar os indivíduos com o ambiente, equacionando os fatos e pessoas com o local.

Outra vertente muito presente nesse período do Pré-Modernismo – mas com narrativas profundamente ligadas ao Modernismo mais adiante – se trata do Simbolismo; dentre eles, o idealismo lírico de Graça Aranha. Ainda no Realismo, temos também numa parte mais crítica ninguém menos do que Monteiro Lobato.

De Graça Aranha, o romance “Canaã” publicada em 1902, e “A Viagem Maravilhosa”, publicado em 1929, destacam-se pelo seu idealismo, seu senso imaginativo perpétuo. Graça Aranha tem uma participação mais profunda e importante dentro desse e noutro período; pois, afinal, é um dos que estará presente nos acontecimentos de 1922, com a Semana da Arte Moderna.

Seu senso reformador foi tão enraizado que, tempos mais tarde, rompeu com a Academia Brasileira de Letras, acusando-a de reacionarismo; porém – e por uma circunstância desgraçada –na maioria de suas contribuições se basearam, justamente, nos pressupostos e estruturas literárias que se deu por divergente. Basta ver, por exemplo, que sua criação literária está intimamente voltada à temática nacionalista, guardando em seu particular desenvolvimento a própria Escola do Recife.

Monteiro Lobato, por outro lado e contendo motivos demasiadamente simples, não obteve nesse momento tanto prestígio e reconhecimento quanto o sr. Graça Aranha no início. Trata-se em sua obra chamada “Urupês” (1918) que seu marco inicial se encontrava. A obra reúne doze contos que se exclamam uma indiferença para com as atitudes governamentais a respeito do sistema agropecuário, concomitante com a destruição e queimadas, atrelado, também à criação de personagens que vivem neste meio como, por exemplo, “Jeca Tatu” como o cabloco – cujas particularidades giram em torno da preguiça e da fadiga.

Não era muito de se esperar que uma publicação desse estilo, ferindo a ideologia nacionalista, envolvida e enraizada com o bovarismo de origem romântica, culminaria sucesso em primeira vista igualmente a outras obras – os Sertões, por exemplo – que resplandeciam visões já ligadas ao modernismo; foi de certa forma, um dos primeiros momentos em que uma geração de escritores, eramengolidos, pouco a pouco, por um movimento literário-histórico.

Ainda no estilo no que tange o desânimo melancólico em ser Brasileiro – no sentido nacional – Lobato forçou, mais uma vez, uma obra chamada “Cidades Mortas”; eis um trecho dessa continuação:

              “A quem em nossa terra percorre tais e tais zonas, vivas outrora, hoje mortas, ou em via disso, tolhidas de insanável caquexia, uma verdade que é um desconsolo ressurte do montão de ruínas: o progresso do Brasil é nômade, e sujeito a paralisias súbitas. Radica-se mal. Conjugado a um grupo de fatores, sempre os mesmos, reflui com eles de uma região para outra. Não emite peão. É um progresso de cigano – vive acampado. Emigra, deixando atrás de si um rastilho de taperas.” (Cidades Mortas, 3. Ed., São Paulo, Monteiro Lobato, 1921. P. 3).

O retrato do Brasil enunciado por Lobato nesse trecho reforça as prescrições realizadas por Machado de Assis quanto ao estado que o advento da República poderia ocasionar. Da diferença desta para a obra predecessora apenas circula na variação de cenário; antes a visão do campo e sua relação para com os indivíduos em sua essência, agora para o núcleo rural e urbano também.

De Monteiro Lobato, no entanto, não pode lembra-lo apenas em suas obras. Muitos de seus pensamentos, quase que indiferentes ao conhecimento de outros escritores, podem muito bem ser encontrados em suas ações, permitindo realizar uma relação de seus sentimentos com seus escritos. Já enquanto trabalhava na Revista do Brasil, fundando a Editora Monteiro Lobato (1920), pode-se dizer de que os veículos de informação e divulgação de idéias e críticas aproximaram-se de, praticamente, todas as tendências e inclinações da época; também sendo conhecido pelas célebres obras de literatura infantil e sem esquecer-se deste seu papel fundamental de sua vida, Lobato apoiou demasiadamente a implantação das Indústrias no Brasil: Fundou, em meados dos anos 30, a Companhia Petróleo do Brasil e liderou a Campanha do Ferro.

Já o célebre escritor de “Os Sertões”, ninguém menos do que Euclides da Cunha, atingiu sua fama por trazer ao espírito moderno a compatibilidade sincrônica de regionalismo na Literatura. Nas próprias palavras de Gilberto Freyre, o critério quase que genial utilizado por Euclides se trata, em sua excepcionalidade, a própria conciliação entre uma espécie de sociologia e geografia; mesmo contendo uma divergência para com bases culturais, a visão literária de Euclides pode ser resumida, sem nenhuma sombra de dúvida, de “imperativa”.

Por essas e outras razões a obra “Os Sertões” procurou adentrar literariamente no espírito brasileiro. Alguns autores e estudiosos brasileiros procuram uma relação dela entre o romance Canaã de Graça Aranha; sobre este fator, este que vos escreve não consegue enxergar nenhuma linha de compará-los, sem cair na usurpação de seus sentidos mais restritos, senão na própria vertente pré-moderna e moderna.

O Modernismo e a Semana de Arte Moderna

Os olhares a respeito do marco inicial do Modernismo normalmente estão direcionados para a Semana de Arte Moderna, enquanto pulam toda uma complexidade de vertentes que podem – e foram – nomeadas desde dentro ao movimento, quanto também em seus dissidentes. Nesse cenário em específico, as repercussões de adeptos e contrapostos sempre surgiam exorbitantemente. Concomitante a essa fisionomia um tanto instável nas passagens das décadas, apresenta-se um novo condicionamento muito mais elevado em critérios de dessemelhança que já não são bem os mesmos que o procederam no período Pré-Moderno.

São em referências de Tristão de Ataíde que evidenciamos uma ampla pluralidade. O mesmo repassou três classes de escritores que resumem, no sentido mais restrito possível, a obscuridade desde o início dos “tempos modernos”; entre eles estão os Passadistas (os que mantinham o espírito do século XIX), Modernos e Independentes (os que mantinham uma posição um tanto aversiva quanto ao Modernismo, Monteiro Lobato, por exemplo); e os Moços (os próprios Modernos) que o autor divide-os em mais quatro classes diferentes: Dinamistas, Primitivista, Nacionalista e Espiritualista. No entanto, o período que se abarca como Modernismo se estende desde 1920 até 1960. Não necessariamente por esse motivo cronológico, mas em todas as décadas nesse espaço de tempo, houve tantas renovações e mudanças, que resumir os Modernos a uma escola e/ou vertente específica é danar toda a produção literária e pensamentos realizados de um aspecto tão complexo.

Sabemos, no entanto, de que o espírito Moderno, através da Semana De Arte Moderna proclamada em 1922, cujo interesse e atenção principal regida pelos mesmos foram meramente a “revisão Crítica de toda uma experiência anterior, em termos brasileiros, voltada para a tendência que nos tem dominado, a saber, a do mimetismo com relação aos valores europeus”. Por mais que enunciem que o intuito do Modernismo da primeira geração foi “descobrir novas formas” – o que não é verdade – os fatos evidenciam que muito pouco fez em acrescentar; na verdade, uma espécie de “redescobrimento”, tanto histórico quanto do próprio estilo brasileiro propriamente dito. Como podemos ver, há uma forte relação para com o espírito “renovador” republicano; dar uma nova identidade ao Brasil tem certa semelhança com redescobrir e renovar estilos.

Os primeiros focos e proclamações modernistas já haviam começado em 1921, pelas colunas do Jornal do Comércio e do Correio Paulistano. Seu resultado: Semana de 22. A criação de “novas revistas mais adaptas aos preceitos modernistas”, como a Klaxon, Terra de Sol (Revista de Arte e Pensamento), etc. surge como ápice de um acontecimento que marcou a arte e a literatura. Entre os dias 11 e 18 de Fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com a companhia de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Di Cavalcanti e muitos outros, instaurou-se, por fim, aquilo que se compreende como Modernismo. No momento das aberturas e exposições, muitas pessoas ficaram chocadas e não apreciaram em demasiado os “novos critérios”.

A renovação da linguagem e da quase extirpação de valores do século XIX por dentro da Literatura ocasionaram reações mais conservadoras em boa parte da população e mídia (por essa razão surgiram revistas citadas anteriormente, no objetivo de realizar uma balança de idéias) e alguns escritores.

Monteiro Lobato já havia, novamente, denotado agora em uma obra publicada no dia 20 de Dezembro de 1917, chamada “Paranoia ou Mistificação” que inclui críticas fortíssimas sob a exposição de pintura de Anita Malfatti – exposição esta que também estava inclusa na Semana de 22.

Destarte, a conturbação não cessou vaga e facilmente. Em vários escritos, há respostas e justificações a perspectiva moderna que, por uma compreensão muito simples, não foi tão significativa de início. Temos aqui um trecho de uma das cartas que Mário de Andrade enviou para seu grande amigo Manuel Bandeira. Mário deixa por ora muito evidente as suas convicções através de um importante depoimento sobre seus procedimentos e intenções que vinha assumindo:

                   [...] “Forcei a nota prá chamar a atenção sobre o problema, sempre com a intenção de no futuro, quando o problema estivesse bem em marcha, voltar a uma menos ofensiva verdade, e a uma lógica liberdade de mim. Nem meu trabalho resultou dessocializante, nem voltei prá trás. Pus um problema em evidência tão ferinte que toda a gente o encarou, dei uma liberdade nova (ajudei a dar, e com incontestável maior generosidade), de que toda a gente que importava se aproveitou” [...].

O leitor deve perceber o estilo moderno na própria carta; expressões como “prá”, “dessocializante”, eram motivos mais do que suficientes para uma crítica midiática, de outros escritores ainda ligados aos aspectos românticos ou parnasianos, e até mesmo da população em geral. No entanto, a respeito disso, Mário também se defende:

                   [...] “Eu não tenho a mais mínima pretensão de criar uma língua. Creio até que das minhas maluquices nenhuma não se estriba sobre o fato não escrito antes. Às vezes mesmo me assombro como tudo já foi dito. Eu me fiz instrumento duma coisa natural, e só. [...] Não sei qual será num século ou 50 a língua brasileira. Sou um fenômeno individual, e sempre falei, você sabe, que trazia a minha contribuição pessoal para um fenômeno que só pode ser coletivíssimo. A principal função minha não está nas minhas ‘invenções’ pois que sei lealmente quanto elas não são minhas, mas no trazer o problema, pros que me lêem, como uma realidade permanente”.

Na Poesia, Mário de Andrade, no entanto, foi dos modernos quem mais se preocupou com formulações teóricas. O "prefácio interessantíssimo" é o prefácio de si ao seu próprio livro “Pauliceia Desvairada”. Ali, Mário reflete-se em um ponto interessante, dizendo que o “passado é lição para meditar, não para reproduzir”, dando a fundamentação básica para o Modernismo que, portanto, era a renovação que reconhecia única e exclusivamente a continuidade, admitindo que “todos os assuntos são vitais”.

São com essas fundamentações que se criaram leis proclamadas pela estética da nova poesia. As mais conhecidas são:

1. Verso Livre: Fundamentação do Ritmo, sem possuir Métrica.
2. Rima Livre: Rima completamente variada, fora de lugar, imprevista e muitas vezes ocorrendo no interior do verso.
3. Vitória do Dicionário: Surge a defesa infame da Gramática como suficientemente prática para “o bom lirismo”, ao mesmo tempo em que se contesta a “construção fraseológica”, com preferência por outra “muito mais larga, muito mais energética, sugestiva, rápida e simples”.
4. Substituição da Ordem Intelectual pela Ordem Subconsciente: Associação de imagens para com a poesia.

Essas regras instituídas neste período alavancam uma personalidade temporal muito recorrente para com as atualidades literárias. (Convidarei o leitor, no próximo artigo, a realizar uma breve reflexão a respeito das “novas leis” esteticamente aceitáveis dentro da literatura).

De todas as obras de Mário de Andrade se destacam algumas características muito notáveis; por exemplo, as propostas poéticas do momento de debate e renovação, a criação em compromisso para com a brasilidade e com seu destino pessoal. A obra “A Escrava que Não É Isaura” projetou-se, por exemplo, estritamente dessa forma.

Outro escritor muito forte dessa época – e que muitas influências ainda permanecem – foi ninguém menos do que Manuel Bandeira. Nascido 19 de Abril de 1886, em Recife, Pernambuco, foi Poeta, crítico da arte e da literatura, professor, tradutor e ainda realizou uma obra monumental “Noções de História da Literatura” (inclusive muito utilizada para a realização destes artigos).

Seus primeiros livros, “A Cinza das Horas”, publicado em 1917, “Carnaval” em 1919 (representando um de seus mais célebres livros), caracterizam a preparação vinda de concentrações e pressupostos parnasianos e simbolistas, posteriormente associado ao seu processo de modernização. A obra “Libertinagem”, publicada em 1930, por exemplo, descreve-se no momento exato de sua atuação fundamental no modernismo. É nessa obra que um cultivo poético irônico procura predominar-se sob os antagonistas dos reformadores; a “liberdade de escrita”, proclamada precedentemente na Semana de 22 e reforçada pelos preceitos e o novo formalismo de Mário de Andrade, reflete como inspiração para o nome da obra. Daí, “Libertinagem”.

Na construção poética, seu lirismo, por assim dizer, percebe-se uma evolução meramente gramatical, e um aprofundamento ao sensualismo e o erótico, proporcionando o ar libertino propriamente dito. Com relação às tradições literárias, o poeta desempenha demasiadas críticas. Não é preciso repetir que a quantidade de criticismo literário nesse período foi exorbitante. Todos atacando todos, sem precedentes. Mas, com Manuel Bandeira é preciso ressaltar uma fisionomia, cuja conquista naquele tempo quase se perdia (exceto com alguns notáveis críticos, como, por exemplo, Monteiro Lobato do qual falamos tanto). Trata-se da honestidade; apesar de deixar-se levar pelas influências do momento, tão cativantes aos olhos contemporâneos da época, procedeu com muita clarividência para consigo mesmo em virtude de analisar obras e vertentes dissidentes.

Algo deste cenário criticista do autor Manuel Bandeira está intimamente relacionado com as publicações dos livros subsequentes; um deles, publicado em 1936, chamado “Estrela da Manhã”, “Lira dos Cinquent’anos” em 1944, “Belo Belo” em 1948 e “Opus 10” publicado já em meados da década de 50. Mas, não haverá somente critérios modernistas em seus escritos finais. De alguma forma, a temática do “fundamento pessoal”, inerente à necessidade lírica, permaneceu e floresceu nestas últimas obras. Em “O último Poema”, podemos perceber uma relação que o próprio tinha da poesia para com o seu íntimo:

                   “Assim eu queria o meu último poema
                   Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
                   Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
                   Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
                   A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
                   A paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. (Poesias, Manuel Bandeira, ed. Cit., p 222).

A melancolia age proporcionalmente para com o Modernismo ao mesmo tempo em que se relaciona com a significação conjuntural que o aborda; com este trecho pode-se perceber que existe nesse, grandes diferenças, comparando-o com poesias dos séculos anteriores. Agora o Verso Livre e dentre as outras novas “leis da literatura moderna” entravam em vigor.

Oswald de Andrade foi um dos que exemplificaram a experiência poética, plenamente vanguardista, baseado nesses novos critérios. Em “Pau-Brasil”, uma de suas principais obras, percebe-se “a busca nas origens, através de fontes escritas” formulando, liricamente, e através de um senso de humor implícito nos cronistas predecessores, o traço interno e externo do perfil Brasileiro. Na obra, Oswald mostra-se demasiadamente contra os preceitos europeus, ainda agindo ironicamente para com os bovaristas do século XIX que também se voltavam para os aspectos “primitivistas” e colonialistas, que o próprio adapta a visão de brasilidade.

A respeito da obra, em uma entrevista datada no dia 26/06/1949, confrontaria o primitivismo pau-brasil com o primitivismo europeu da época. Para que fique mais claro, reservei um trecho importante de sua fala:

                   “BlaiseCendrars teve influência no surgimento do Pau-Brasil. Em 1925 eu trouxe impresso de Paris, com prefácio de Paulo Prado e ilustrações de Tarsila, o livro Pau-Brasil, de que decorreu um movimento dentro do nosso Modernismo (primitivismo/ grifo do autor). O primitivismo que na França aparecia como exotismo era para nós, no Brasil, primitivismo mesmo. Pensei, então, em fazer uma poesia de exportação e de importação, baseada em nossa ambiência geografia, histórica e social. Como o pau-brasil foi a primeira riqueza brasileira exportada, denominei o movimento Pau-Brasil. Sua feição estética coincide com o exotismo e o modernismo. 100% de Cendrars, que, de resto, também escreveu coincidentemente poesia Pau-Brasil.”

É com este “cenário Moderno”, com tantas particularidades, diversificações desde dentro do movimento modernista, que deu-se por iniciado um novo critério literário; este que estende-se até os dias atuais concomitante a algumas reformas e novas fisionomias. Houve muitos escritores desse tempo que mereciam seu tempo e lugar, dentro da plenitude do momento, como Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, José Vieira e Rubem Braga. No entanto, atento-me aos escritores modernos citados mais acima, de uma forma mais particular e compacta, pois, é em meados do século XX, mais especificadamente entre 1950 e 1960 que teremos de retomá-los como fonte inicial e outros autores modernos; por formas de contraste e comparações não levianas, mas intrinsecamente necessárias para podermos rastrear e pontuar claramente os processos literários do século XXI.


Por - Lucas Emmanuel Plaça.

Bibliografia:
História do Modernismo Brasileiro – Antecedentes da Semana de Arte Moderna, São Paulo, Saraiva, 1958. Mário da Silva Brito/ Capítulo VII – “Ruptura e Auto-conhecimento”/
V. Augusto dos Anjos, Poesia e Prosa, 1977/ 
Fernão Góis, Panorama da Poesia Brasileira – Volume 4 – O simbolismo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959/
João do Rio, O momento Literário, Ed/
Cidades Mortas (contos e impressões), 3. Ed., São Paulo, Monteiro Lobato, 1921/ 
José Aderaldo Castello, A Literatura Brasileira. Origens e Unidade, Vol. 1, 2/
Gilberto Freyre, Atualidade de Euclides da Cunha, Rio de Janeiro, ed. Da Casa do Estudante do Brasil, 1941/
Mário de Andrade, Cartas a Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1979/
Cronologia Geral da Obra de Mário de Andrade, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros/ 
Mário de Andrade, A Escrava que Não É Isaura, Ed./ 
Augusto dos Anjos, Eu. Bertrand Brasil Ed 49/
Manuel Bandeira, Noções de História da Literatura, ed. 1949/
Silvio Romero, História da Literatura Brasileira, Vol. 1, 2 e 3/


História da Literatura Brasileira (Século XIX)

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Alguns Precedentes

O século anterior (XVIII) está marcado por um crescimento literário em dois momentos marcantes, bem reconhecível na região de Minas Gerais, com a criação da Escola Mineira que procedeu com o ambicioso projeto, na maior parte frustrado em virtude da extinção da Academia dos Esquecidos – sua base. Uma das grandes importâncias dessas “Escolas” “Academias” se trata do vestígio conjuntural que a determina. A influência do Barroco no final do século XVII, e a massiva dos Iluministas posteriormente, definiram a criação das academias em seu sentido mais restrito, como também necessário.

Não há muito que contrariar, literariamente, nesse ponto. Afinal, esse momento é bem lembrado como o primeiro grande exemplo de coordenação planejada de um trabalho de equipe. Com este aspecto, da própria produção literária, prosseguimos num alto crescimento quantitativo e até qualitativo, como tal não havia sido registrado até o momento.

E é com este terreno de evoluções, tanto político quanto literário, que adentramos um século com produções de diferentes vertentes, em diferentes momentos que caracterizam, consequentemente, diversificadas expressões da realidade social. O Arcadismo fortalecido em 1768, que se estende até 1830, é substituído por uma das vertentes que naquele momento fez-se necessária – visto a Independência em 1822 – como rejuvenescimento do sentimento e de visões mais liberais: O Romantismo.

Século XIX – Romantismo (1830 – 1880) A Poesia

A primeira geração do Romantismo surge em um contexto um pouco abalado. Com o Período Regencial, isto é, a abdicação de Dom Pedro I, estendendo-se até a Declaração da Maioridade de Dom Pedro II, efetua-se uma espécie de inquietação geral por parte da própria população e de alguns regentes. Conjuntura marcante o suficiente a servir de suporte para que os românticos da época debruçassem em pequenas repulsas as idéias europeias. Nesse aspecto, os românticos brasileiros retiraram mínimas inspirações dos românticos estrangeiros e resgataram através das escolas e academias brasileiras predecessoras alguns estilos literários com o intuito de aprofundar, no fim das contas, uma nova identidade nacional.

Dessa forma, todo o sentimentalismo e um nacionalismo que não é bem o mesmo do século anterior, afloram-se nesse período – fôsse contra ou a favor da condição do império. No mais, os ideais da Revolução Francesa de 1789 e a Revolução Constitucionalista do Porto penetraram os Românticos brasileiros, fazendo com que a partir de 1820, a aversão contra o regime Imperial tornasse regra.

Um dos primeiros personagens desse movimento foi Domingos José Gonçalves de Magalhães. Nasceu no Rio de Janeiro, onde fez os estudos secundários e formou-se em Medicina. Em 1836, publicou na revista Niterói, editada em Paris, um artigo cujo título era “Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil – Estudo Preliminar”. Tal artigo foi, mesmo não contendo a nomenclatura “romantismo”, um dos primeiros manifestos românticos já documentados em alguma mídia.

Magalhães, nesse artigo, traz um resumo da nossa literatura “que herdamos de Portugal”. Dizia:

                  “Com a poesia vieram todos os Deuses do paganismo, espalharam-se pelo Brasil, e dos céus, das florestas e dos rios se apoderaram. A poesia do Brasil não é uma indígena civilizada, é uma Grega, vestida à Francesa e à Portuguesa, e climatizada no Brasil [...] Encantados por este nume sedutor, por esta bela estrangeira, os poetas brasileiros se deixaram levar pelos seus cânticos e olvidaram as simples imagens que uma natureza virgem com tanta profusão lhes oferecia [...] Pode o Brasil inspirar a imaginação dos poetas? E os seus indígenas cultivaram a Poesia?”.

Crítica tão exorbitante aos poetas do passado que seu próprio subterfúgio – o de ausentar o romantismo estrangeiro – justifica-se em sua expressão, jogando de lado uma espécie de má qualidade histórica dos Gregos, Franceses e Portugueses que, por sua vez, foram demasiadamente absorvidos no Brasil.

Há características do liberalismo (não compreender como liberalismo econômico, mas a idéia geral que repercutia através da literatura) que estão contextualizadas desde dentro dos românticos brasileiros. O abandono dos artifícios arcádicos, da paisagem europeia em favor da natureza brasileira, da religião dentro do Estado e as regras clássicas sendo substituídas pela “livre iniciativa individual” são demasiadamente predominantes.

Magalhães fomentou através desse artigo e alguns escritos como “Suspiros Poéticos e Saudades” – editadas em Paris – grandes números de discípulos e seguidores que surgiram posteriormente. Em razão disso, a poesia romântica estendeu-se do ano de 1836 a 1880, com pequenas diferenciações da sintaxe, vocabulário e a métrica utilizada, e grande no sentimento e no tom.

Seu canto lutuoso, chamado “Os Mistérios”, o poema “A Confederação dos Tamoios”, o romance “Amância”, as tragédias “Antônio José” e “Oligiato”, e por fim dois livros de arcabouço filosófico “Fatos do Espírito Humano” e “Alma e Cérebro”, todos esses fazem parte do repertório produzido por Domingos José Gonçalves de Magalhães.

Apesar da quantidade e diversidade das temáticas, é possível dizer de que a profundidade de um lirismo aguçado, e a inovação tão esperada, não foi de forma alguma alcançada. Também, mesmo com o fato de o autor ter rejeitado o passado Europeu e estrangeiro, dando “adeus às ficções de Homero”, não se desapegou da antiga retórica e o estilo emocional clássico, assim como Manuel Bandeira assinala: “a maioria de seus versos rastejam quase sempre em lugares-comuns, aos quais a ênfase tenta embalde comunicar alguma emoção”.

Seguidamente, surge Manuel de Araújo Pôrto Alegre, primeiro e único Barão de Santo Ângelo. Modificou seu nome – mais como um pseudônimo – para “Pitangueira”, no propósito de “aderir completamente ao espírito nativista e romântico”. Desde cedo já era fascinado pela arte. Matriculou-se, inclusive, na Academia de Belas-Artes conquistando prêmios de arquitetura e pintura. Em 1840, por exemplo, foi nomeado pintor da Câmara Imperial sendo responsável pelos trabalhos de decoração no dia da coroação de D. Pedro II e em seu casamento com D. Teresa Cristina. Acompanhou seu instrutor, Debret, um dos membros da missão artística francesa contratada por D. João VI, para a França. Em Paris conseguiu publicar na revista Niterói o poema “Voz da Natureza”, escrito em 1835 e um estudo sobre música brasileira. Quando voltou ao Brasil, fundou com outros escritores e seguidores do Romantismo o “Conservatório Dramático” e em seguida a Academia de Ópera Lírica.

Em praticamente todos os momentos de sua vida dedicou-se a Arte em geral. Manuel de Araújo, ainda gerou uma série de poesias líricas como as Brasilianas, um poema do estilo “Épico”, o Colombo, dois Dramas – O Prestígio da Lei e Angélica e Firmino --, uma comédia arqueológica “A Estátua Amazônicas” e diversas outras obras artísticas.

No entanto, Manuel de Araújo não possuía uma poesia muito estável. Nem mesmo Magalhães. Os dois, a despeito de promoverem o início do romantismo, não tinham em si a verdadeira imaginação e sensibilidade poética. Há de pensar que, na estrutura do romantismo brasileiro, existe um desequilíbrio e uma falta originalidade plena tão elevada, tornando suas expressões líricas – isto é, a expressão através da composição poética – débeis e incapazes de proporcionar um relevo tênue. O que, em stricto sensu, não é mentira alguma. Pois, basta investigar seus textos iniciais para concluir que o Romantismo “começou errado”.

Porém, em leve contraste com o erro, surge o romântico Antônio Gonçalves Dias (1823 – 1864). Gonçalves Dias sofreu muitas dificuldades financeiras e emocionais em sua vida, o que não o impediu de ter estudos na Europa. Nos anos em que ficou em Portugal, conseguiu aprender muito. Também, tirando o curso da universidade, estudou a literatura Francesa, Inglesa, Alemã, Espanhola e da Italiana. Grandes repertórios de suas poesias estão inseridos nos Primeiros, Segundos e Últimos Cantos. Há um romance autobiográfico “Memórias de Agapito Goiaba”, os dramas Patkull e Beatriz Cenci.

A diferença que Gonçalves Dias possui dos outros dois escritores pode ser encontrado no seguinte escrito a respeito de sua poesia: “Gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena política para ler em minha alma, reduzindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéias que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano – o aspecto enfim da natureza [...] Poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir”.

Assim como o próprio enuncia a poesia como a fusão do “sentimento com o pensamento”, tornando-a indecifrável, nos Primeiros Cantos há elogios de Alexandre Herculano (historiador e poeta Português) “como inspirações de um grande poeta”. Publicou em 47 e 48 dois dramas, um no estilo de prosa e outro escrito em português arcaico – o último fazendo parte de “Sextilhas de Frei Antão”. O “Sextilhas” trata-se de uma resposta aos censores do Conservatório Dramático que condenaram seu outro drama, aquele da Beatriz Cenci que circulava assuntos italianos da época do Renascimento, como escrito em “português de contrabando”.

E foi no momento em que publicou os Últimos Cantos poéticos em 1851 que o Império brasileiro deu-lhe a tarefa de investigar a organização da instrução pública em diversas províncias do Norte e notificar alguns meios de melhorar seu funcionamento. Por controvérsias e novos encargos, partiu para a Europa, publicando em 1857 a segunda edição de suas poesias, e regressa ao Brasil já em 1859 para fazer parte da comissão científica que explorava as riquezas do solo brasileiro. Faleceu, tragicamente, em um naufrágio – já com o estado de saúde desfavorável por conta da nova comissão que lhe puxou muito esforço.

Conquanto, falecendo mais cedo que outro escritor da época produziu muito para o país e para a história da literatura. Mesmo não contendo realismo em suas conjeturas sobre os índios e a nacionalidade brasileira, literariamente foi, em suas poesias, o primeiro que soube manejar formidavelmente a estrutura do lirismo. Lembremo-nos de Manuel Bandeira:

                       “Sem dúvida é Gonçalves Dias cronologicamente o nosso primeiro grande poeta, pela imaginação e sensibilidade. Bem razão teve Ronald de Carvalho ao chamar-lhe na sua Pequena História da Literatura Brasileira a primeira voz definitiva da nossa poesia...” (Noções de História das Literaturas, página 299).

No mesmo tempo surge Manuel Antônio Alvares de Azevedo, nascido em São Paulo no ano de 1831 passando a infância no Rio de Janeiro. Formou-se no Colégio Pedro II e tentou matricular-se em Direito já novamente em São Paulo. Alvares de Azevedo contém uma diferenciação muito mais profunda de todos os escritores do Romantismo até agora assinalados. Na ótica de Gonçalves Dias, quase um antagônico.

Há lacunas, comparado aos outros, em alguns critérios de sua forma romântica. A mais recorrente e percebível discorre acerca do desaparecimento mútuo da confiança religiosa, do sentimento amoroso e espiritual e, por fim, mas não menos importante aquele estilo patriótico-indianista fortalecido até o momento. Substituindo as características que incorporaram a estrutura romântica, vem à tona aquilo que para Azevedo era “sinceramente pessoal”. O seu erotismo entravado pela timidez, os pressentimentos melancólicos derivados de uma saúde precária e uma forte obsessão pelo assunto da Morte.

Destarte, a obviedade de transição – talvez imprópria cronologicamente – de um estilo que, mal formado e quando estruturado descabido de uma constituição que transcenda naturalmente, é mais do que incontestável.

Sobre a Poesia nesse século ainda tivemos Laurindo José da Silva Rabelo apoiando-se nas sátiras, no meio literário e também poético com Casimiro José Marques de Abreu – conhecido mais por sua simplicidade e ingenuidade na escrita – e também Luiz José Junqueira Freire e Francisco Otaviano de Almeida Rosa. A maioria citada por aqui, preconiza as vertentes de, ora Gonçalves Dias com seu patriotismo e poesias bem alicerceadas, ora Azevedo com a repulsa ainda maior as “coisas do espírito” contendo uma nova estrutura constituída através da transição.

Mas o que encerra a nova vertente da Poesia é ninguém menos do que Castro Alves (1847 – 1871). Em 1854 já dava início aos estudos no Ginásio Baiano, impulsionando o fato de que com 16 anos fora mandado para Recife estudar Direito, e na capital pernambucana florescia sua poesia e oratória. Um dos acontecimentos mais remotos de sua vida foi quando, em meio ao curso em 1867, apaixonou-se por uma atriz portuguesa, a Eugênia Câmara, partindo ambos para a Bahia, cuja representação é o drama em prosa “Gonzaga ou a Revolução de Minas”.

Castro Alves obteve acidentes em sua vida que, impremeditada e paulatinamente o levaram a falecer de tuberculose; acidentes, estes, como um tiro casual no pé que, depois de algumas cirurgias e tentativas de reconstrução, teve de amputá-lo.

Uma de suas principais obras, o livro “Espumas Flutuantes”, publicada em 1870, são cantos por ele definidos como algo que arrebenta ao “estalar fatídico do látego da desgraça, refletindo por vezes o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo”. A outra, que por sua vez realizou-o sendo conhecido como “poeta dos escravos”, chama-se “A Cachoeira de Paulo Afonso” em remate, e outras que constituíram o poema “Os Escravos”.

                            “A Cachoeira de Paulo Afonso retrata um episódio da escravidão; a escrava Maria é violentada pelo filho do senhor das terras, o qual escapa à vingança do escravo Lucas, noivo da moça, graças à revelação, que lhe faz a mãe deste, de ser ele seu irmão[...]” (idem).

Castro Alves contém, ademais, pequenas diferenças no que se compreende como “poesia de inspiração épica”.

A Prosa

Na Prosa temos os principais Manuel Antônio de Almeida e José Martiniano de Alencar. Manuel Antônio era jornalista quando publicou em 1854 “As Memórias de um Sargento de Milícias” que, precedentemente, havia aparecido em um jornal. No entanto, Manuel Antônio está mais para um realista – antes de surgir o movimento realista no Brasil – do que para um romancista. E isso, assim como Manuel Bandeira pontua acertadamente, foi mais do que importante, pois, de certo, foi uma originalidade inicial ao realismo posterior tremenda. A obra foi muito bem escrita, contendo o mesmo estilo pitoresco já apreciado tempos atrás.

José de Alencar, por sua vez, teve reconhecimento acelerado comparado aos outros escritores. O primeiro fator que o sustenta foi seu próprio pai, padre, participante na revolução pernambucana de 1817 e membro da Constituinte do Império Brasileiro. Como romancista, conservou todos os gêneros até agora criados; o indianismo, romance mundano, romance histórico, romance regional e o romance social. Sua mais conhecida obra é “O Guarani” que ressaltava, literariamente, a luta entre a “raça indígena e a raça invasora”.

Machado de Assis, apesar de contemporâneo ainda da segunda geração do romantismo, não foi, in latu sensu, adepto de alguma linha literária. Pode-se dizer que, Machado de Assis – talvez o maior escritor que esse século já teve – conseguiu constituir uma linha própria, pessoal e ao mesmo tempo tão extensa em proporcionalidade de alcance que é absolutamente inconcebível resumir Machado de Assis a uma mera vertente. Foi uma figura singular e que serviu como quadro de influência para diversos outros escritores de diversas vertentes.

Nascido em 1839 no Rio de Janeiro, teve vida difícil financeira e emocionalmente desde cedo. Órfão desde pequeno teve de se esforçar nos estudos tornando-se um autodidata. Com todo o esforço que praticamente sozinho teve de exercer – em sua tenacidade e amplitude de visão – conseguiu subir de um simples aprendiz de tipógrafo, a jornalista e alto funcionário de secretaria. E, como se a vida não lhe pudesse mais danar, ainda continha maiores incidentes como os ataques alarmantes da terrível doença que lhe habitava; Assis tinha epilepsia.

Casou-se como a irmã de um poeta chamado Faustino Xavier de Novais, a Carolina cuja sua morte teve atenção suficientemente emocionante num dos mais puros sonetos de nossa língua. Durante uma parte de sua vida, Machado de Assis teve uma leve inspiração romântica, publicando as suas primeiras obras com tal respaldo. Mas, há fortes diferenciações.

Seus romances colocam o interesse da narrativa menos na ótica anterior; isto é, a visão dos costumes, o nativismo, etc. Isso era desimportante. Machado de Assis pontuava, quase que excessivamente, na análise de situações morais e em seus conflitos. Momentos escritos que expressam a maior indignidade humana, ou a maior dignidade.

É, sem a menor sombra de dúvida, o simbolismo da realidade da vida que o escritor se expressava. Desde situações de completo desespero e repugnância até as mais nobres, torna-se visível à influência religiosa cristã em suas exteriorizações a partir do lirismo construído em sua plenitude. Seu último livro, o romance “Memorial de Aires”, quebra a unidade da fase que poderia ser demasiadamente diversa, como Braz Cubas e Dom Casmurro. É nessa obra que, enternecido pela perda da esposa, evidencia-se, através do narrador “Aires”, sendo um cético – mas sem a secura e o cinismo dos dois predecessores.

Por fim, Machado de Assis usufruía de uma repulsa inimaginável – mas com razão – para com a República. Entendia, que o Império com todos os problemas que já poderiam ter sido obtidos com a regência e Dom Pedro I, ainda assim era melhor prevenir revoluções e mudanças radicais que destruiriam a identidade que o povo tinha com o imperador e seus símbolos. Coloca-se, portanto, contra as idéias tão oferecidas por seus anteriores.

Movimento Realista – Escola Parnasiana

A chamada “Escola Coimbrã”, remonta a escola parnasiana e o movimento realista contra o movimento do romantismo, ao final do século XIX. O espírito francês entrava ainda mais em cena, com seus parnasianos, como por exemplo, Alberto de Oliveira e a reação que já se buscava na década de 70 na organização doutrinária na poesia científica e/ou filosófica de Sílvio Romero, Martins Júnior, Aníbal Falcão, entre outros.

O nome de “Parnasiano” exerceu contratempos desde seu início. Nenhuns dos poetas assim chamados tiveram a possibilidade de evidenciar, em sua plenitude literária, o que de fato era o conceito de parnasianismo. Mas, em todo o caso, as características mais marcantes foram à sobriedade nas imagens, concebidas mais como relações de semelhança; requinte na versificação – livre ou não – banindo o hiato e empregando com frequência o “enjambement” (enjambement – verso que continua no seguinte, na sintática, semântica contendo um ritmo ainda mais restrito).

Evidente, também, que foi expungida muita formalidade de fonética e de sintaxe em outras áreas, a mesma que veio procedendo por séculos de estudos daqueles que foram a Portugal. Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857 – 1937), Raimundo da Mota Azevedo Correia (1859 – 1911), Olavo Braz Matins dos Guimarães Bilac (1865 – 1918) e Vicente de Carvalho (1866 – 1924) foram os principais dianteiros da geração parnasiana. A prosa também não escapou dessa geração, sendo influenciada pelo discípulo do português Eça de Queiroz, Zola. As primeiras iniciativas, na prosa, foram de Aluísio de Azevedo, influenciando muitos a sua frente como Júlio César Ribeiro e Coelho Neto.

No geral, os autores do Realismo proporcionam, em suas obras, alguns apetrechos de análise que antes não havia, ou não poderia ser levantado. Como, por exemplo, através de uma perspectiva mais pessimista e “horrosiva” sobre os indígenas que eram tão aclamados pelos românticos, ou então os aspectos da política e da vida, etc.

Breve Reflexão Externa

Dos que chegaram até aqui, quantos pararam para pensar e perceberam a imensa produção desse século? Não houve espaço para colocar tudo, devido à complexidade e imensa documentação. A grandeza de Machado de Assis, por exemplo, não pôde ser exemplificada em poucas linhas. Mas, de todo o modo, a Arte, incluindo Teatro, Literatura e o fortalecimento cultural a partir disso foram, em todos os sentidos possíveis, grandiosa.

Alguns escritores enunciam que este foi o apogeu da história da literatura brasileira. Outros dizem o contrário, e outros mais medíocres insistem em exclamar que atualmente (século XXI), a nossa literatura chegou ao seu ápice. No entanto, peço para que você, caro leitor, apenas memorize o fato de que o século XIX foi promissor de escolas literárias bem antagônicas, estilos, escritores e grandes poetas – até de melhor forma do século anterior – abrindo espaço para todas as vertentes possíveis.

Peço isso, pois, em meados do século XX haverá uma decadência moral e literária tão grande que será preciso apegar-se aos bons momentos de nossa literatura, para não sucedermos na profunda tristeza e conseguirmos focar naquilo que interessa ao espírito brasileiro.


Por: Lucas Emmanuel Plaça

História da Literatura Brasileira (Século XVIII)

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O Crescimento Literário

O início do século XVIII e seu escoar de eventos importantíssimos é notável em praticamente todas as localidades do mundo Ocidental. Dentro da Europa temos mudanças políticas, religiosas e filosóficas muito profundas. América do Norte não foge do termo político, em sua independência, fora a atividade local de seus habitantes que conquistou uma junção entre as novas modalidades filosóficas com o tradicionalismo moral e religioso.

Com o Brasil também não foi tão diferente. Obtêm-se, como noutro contexto, sólidas personificações literárias e nacionais que já foram alvorecidas no século anterior, aglomerada em inovações intelectuais decorridas da Corte Portuguesa que ao longo da prática brilhou em aperfeiçoamento. Mudanças, estas, que também evidenciam de que a Literatura brasileira, enfim, começava a enunciar a própria alma do indivíduo, sua mentalidade, sua visão de mundo. Para podermos determinar tal evolução, vale enunciar à prioristicamente uma divisão de duas metades nesse século em questão; O primeiro momento entre 1700 até 1750 e o segundo entre 1750 até 1830.

O Primeiro Momento

O primeiro momento está marcado por uma série de episódios econômicos, sociais e políticos em que sua expressão para o todo social entra em complicações; dentro delas, pode-se perceber uma altíssima relevância que os escritores optaram a realçar. Diferentemente dos séculos anteriores, no qual apenas cronistas, pregadores e poetas exteriorizavam literariamente, agora se têm uma concentração maior em outra modalidade de suas atividades; os estadistas e historiadores propriamente ditos entraram em cena.

Com isso, há uma formação de sociedades literárias e tradições intelectuais que já não são bem as mesmas que produziram seus antecessores; o que, não se pode pensar, que o gongorismo (excesso de ornatos e com linguagem rebuscada, obscura) deixou de existir. Na região da Bahia, por exemplo, permaneceu-se tal estilo ao mesmo tempo em que agravou versejadores latinos, dramatistas, historiadores, etc, sem esquecer, também, que o sentimento nacional – ou o amor à pátria – foram uma das características da tradição intelectual que fora aproveitada e aprofundada no Nordeste. E através de novas academias, o anseio de crescimento vigorava – às vezes sem sucesso e reconhecimento externo.

A Academia dos Esquecidos foi uma das primeiras que lograram a tentativa de desenvolvimento. O próprio nome, “esquecido”, vem do propósito de lembrar à Metrópole, em cujas arcádias não tiveram entrada, que havia ali quem se interessasse pelas “coisas do espírito”.

Não tão esquecida quanto parece afinal que os críticos foram muito rígidos depositando uma atenção notável, é verdade. Não obstante é preciso relevar algumas coisas. As documentações sobre a Academia dos Esquecidos são de difícil acesso. Dos pouquíssimos escritos sobrados, a maioria é fútil e que realmente compromete o talento e o gosto dos escritores daquele tempo. Assim como Silvio Romero lembra:

                  “A academia dos Esquecidos da Bahia, a dos Felizes do Rio (de Janeiro), e mais tarde a dos Seletos (também do Rio), a dos Renascidos (Bahia) e a Arcádia Ultramarina (Rio), são denunciadoras de muita vivacidade intelectual, muito desejo de aprender e trabalhar, por parte dos colonos brasileiros [...] E se é certo que os seus escritos não podem ser citados como prova de alto aproveitamento, o que então se praticava na metrópole não era de muito melhor quilate, e isto é o principal”. (p. 386).

José Veríssimo escreveu, em História da Literatura Brasileira que “apesar da origem oficial, e de ser um arremedo, havia porventura nelas um sentimento de emulação com a Metrópole, e, portanto um primeiro e leve sintoma de espírito local de independência” – apesar de que, naquela época, ainda não se falasse em independência. Fundada em 1724, a Academia dos Esquecidos sob o patrocínio do 1° Conde de Sabugosa, Vasco César de Meneses, pertenceram aos principais escritores da época, como Sebastião da Rocha Pita, João Mendes da Silva (pai de Antônio José) e os irmãos Gusmão (Bartolomeu Lourenço Gusmão e Alexandre de Gusmão). A academia reuniu-se pela última vez em fevereiro de 1725.

Rocha Pita, nascido em 1660, na Bahia, formou-se em cânones pela Universidade de Coimbra. Ao voltar para a terra de nascença, tem como prioridade tomar por matéria geral dos seus estudos a história brasileira, resultando numa obra chamada “História da América Portuguesa”. Toda influenciada pelas aspirações da Academia dos Esquecidos. A importância historiográfica e literária dessa obra, não se dá somente pela estrutura da escrita ou o tempo em que foi publicada – a última como critérios históricos. Mas, também, através do livro de Rocha Pita pode-se perceber um grande afeto com a terra natal, mesmo sabendo que a obra, razoavelmente, demonstra uma fidelidade à Metrópole. Daí, sua visão nacional e patriótica aflorava-se, mesmo que minimamente. Pequenos trechos apresentam isso:

                  “Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios mais dourados, nem os reflexos noturnos nos mais brilhantes; as estrelas são as mais benignas e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasça sol ou se sepulte, estão sempre claros [...] é enfim o Brasil terreal Paraíso descoberto [...]” (Rocha Pita, História da América Portuguesa).

Por muitos cantos esse trecho é citado. E com inteira razão. Afinal, tal sentença, evidencia claramente o intuito patriótico do livro. O estilo de Pita, como forma historiográfica, é bem inusitada – até mesmo para este século. As quantidades de hipérboles, otimismos, focadas em realçar literariamente a beleza das terras brasileiras e de sua nação são de certa forma exageradas. O que, por sua vez, não invalida as descrições recheadas – num sentido estritamente formal – que os historiadores usualmente realizam. Entretanto, ao elaborar poesias, deixou muitos defeitos, perante o que vemos nas documentações. A quantidade de antíteses, amplificações, tropos inchados e de prolixidades segundo alguns críticos “são insuportáveis”.

Em todo o caso, nas enumerações das grandezas brasileiras, o velho Rocha Pita somente foi ultrapassado tempos depois, pelo seu subsequente Gilberto Freyre (nos artigos seguintes, Freyre será muito mais pontuado pela sua grande importância). Deu-se influência, mesmo que indiretamente e em baixa escala, aos românticos que surgirão depois.

Posteriormente, em 1705, nasce Antônio José da Silva – provavelmente o maior antagônico encarnado do velho José Anchieta. A importância desse escritor, nesses primeiros momentos, foi de grande porte. Os três elementos que nos faz pensar em pontuá-lo dessa forma; é a sua naturalidade, a família que inoculou na alma o sentimento patriótico e a natureza de seu lirismo totalmente original. Mesmo sendo “acusado de Judaísmo” e obtendo problemas até mesmo de circulação pública, o Santo Ofício em torno de 1727 a 1737 deixou-o minimamente liberto. Nesse curto espaço de tempo, apenas conseguiu escrever comédias.

Em ter uma vida difícil, até de locomoção própria, nada impediu que Antônio José fosse um dos escritores mais estudados subsequentemente. O historiador Varnhagen, por exemplo, escreveu uma biografia do escritor, sem fazer nenhuma análise profunda, pois realçava o fato do poeta ter estudado obras de Metastásio, Molière e Ratrou sendo, como fato, “o suficiente para ser relatado”. Teófilo Braga e Ferdinand Wolf – mais dois exemplos – julgam o poeta em relação ao seu tempo. Nesses critérios, enxergam em Antônio José, uma espécie de “utopia que aconteceu”, pois, na época não havia opinião pública que pudesse penetrar num palanque para tal poeta e que, no entanto, alcançou sucesso utilizando uma linguagem informal, chula e com locuções pejorativas do idioma português. Até mesmo Machado de Assis insistiu em relembrar as imitações de Molière, feitas pelo poeta.

Destarte, não foram propriamente a faculdade de falar “asneiras” que se pode ligar o sentimento nacional com a individualidade e o campo de visão do Antônio José. O que foi capaz de conectar sua expressão nacional se trata do lirismo naturalista que o poeta conseguiu aprofundar e aperfeiçoar quase que incansavelmente por toda a sua vida. Vejamos um exemplo do puro lirismo de Antônio José:

                         “Em ti mesma considero
                         De meus males o motivo,
                         Por ti morro, por ti vivo.
                         Tu me matas, tu me alentas,
                         E contigo está meu bem...

                         Deixa, pois, que triste viva
                         Quem alegre busca a morte,
                         E verás que dessa sorte
                         Essa vida me horroriza,
                         E esta morte me convém!”.

Com isso há de pontuar uma breve reflexão. Os dois grandes personagens citados acima não são de estrita forma, meros escritores que apenas impulsionaram a apreciação pela nação. Mas, é exatamente por isso que seus ângulos de visões estavam mais aproximados daquela realidade que buscavam talvez uma espécie de verdade nacional. Nada mais do que uma solene forma de conhecer a si mesmo, para compreender o seu redor.

Vemos o primeiro momento, portanto, como uma espécie de formação mais concreta daquilo que o século anterior deu início. O crescimento literário, sentimento nacional, a expressão cativante da natureza brasileira e o enfim compartilhamento de suas próprias visões de mundo faz de Antônio José, Rocha Pita e muitos outros como Alexandre e Bartolomeu Gusmão, como os principais escritores que deram um engrandecimento ainda maior na Literatura e em todas as áreas da Escrita no Brasil.

Terminamos, aqui, aquilo que poderíamos chamar de “período colonial” (lembremos de que não se trata do termo “colônia” propriamente dita, mas apenas uma forma de guiarmo-nos para uma compreensão mais exata daquela realidade), e, enfim, o período “nacional” – altamente fortalecido pelo seu precedente nativista – surge junto com o Segundo Momento.

O Segundo Momento

Esse novo período se estende desde 1750 a 1830 – no qual aqui será pontuado somente até 1800 e posteriormente concluindo em outros artigos. historiadores da literatura acabam cometendo – em pensar a Literatura somente nas regiões nordestinas durante dois séculos e meio e em seguida esquecer-se dela a partir da Academia dos Renascidos. Tanto que, já ressaltado em artigos anteriores, há uma quantidade notável de escritores, poetas e cronistas nas regiões de São Paulo e Rio de Janeiro, praticamente desde o início da colônia.

Em todo o caso, há um vislumbre maior na mais antiga academia do Rio, a “dos Felizes” que, por consequências semelhantes a dos Esquecidos, fechou-se com apenas quatro anos de funcionamento. Sua subsequente, no quesito de substituição, surge em 1752, a dos Seletos, e last but not least’ a “Sociedade Literária”, fundada em 1786 por Silva Alvarenga. A Arcádia Ultramarina ainda é muito citada, mas sem documentações o suficiente para poder ser catalogada aqui (alguns dizem que a Sociedade Literária era a própria Arcádia Ultramarina. Suplico para que algum historiador interessado na história da literatura, especialmente sobre a Sociedade Literária, investigue isso).

A Sociedade Literária, sob patrocínio do vice-rei Luiz de Vasconcelos, foi dissolvida pelo sucessor, conde de Resende, que, escarmentado com os sucessos recentes da Inconfidência, viu naquela reunião de literatos desígnios de insubmissão. Praticamente todas as academias citadas preservam o estilo gongórico, assim como Alberto Lamego diz em sua obra Academia Brasílica dos Renascidos:

                      “[...] Espírito gongórico, que se comprazia em torneios fúteis, como o de saber qual a empresa de maior glória: celebrar Lisboa a conservação da vida de el-rei nosso Senhor na sua presença ou celebrara a Baía na sua ausência?”

Apesar de ferrenhas críticas, o segundo momento baseia-se em crescimentos e desenvolvimentos tão autônomos que até o momento nunca havia se visto algo parecido antes. Os melhores poetas (os épicos) do tempo, constituem-se na grande Escola Mineira. E esta é a grande evolução do tempo, algo que até mesmo pelos seus aspectos interiores e sociais podem e devem ser compreendidos como autossuficientes. Silvio Romero a coloca como “mais importante do que a própria Escola Baiana do século anterior”.

A respeito da Escola Mineira há uma prevalência de importância ainda maior entre 1800 – 1810, mesmo possuindo em sua essência boa parte dos conteúdos em torno de 1760 – 1790 e, por essa razão, merecidíssima de uma atenção maior, será preciso continuar no próximo artigo até como precedentes daquilo que surgiu depois.


Por: Lucas Emmanuel Plaça

História da Literatura Brasileira (Século XVII)

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Escola Baiana e a Literatura Brasileira propriamente dita

Este novo período, o Século XVII, está marcado por uma inclinação de acontecimentos, podendo ser verificados através da Literatura local as aspirações e os desejos da sociedade que ali se formava e que se estendem por longos períodos. Podemos até elucidar a idéia de “Literatura local”, pois é nesse exato momento na história do Brasil que se torna capaz de afirmar uma literatura nacional propriamente dita. Isto é, o surgimento de uma cultura literária formada por brasileiros de nascença, com seus traços e particularidades fundamentais para uma expressão positiva do estado emocional e intelectual. Além disso, veremos subsequentemente, o início dos embates internos que, não obstante, os sentimentos nacionais afloram-se juntos em busca de um objetivo em comum.

Cabe a assinalar, superficialmente, tal situação. O despontar do sentimento nativista, revelado nas lutas contra invasores estrangeiros – holandeses – desencadeando sua enfim expulsão de Pernambuco está muito bem retratada na obra do frei Vicente Salvador em “História do Brasil”. Segundo Capistrano de Abreu no prefácio à edição da “História do Brasil”, tal obra só tem “história” no título e em algumas particularidades abordadas, e que o livro era mais de histórias do Brasil do que de “História do Brasil”. Na obra, Vicente Salvador abarca um período de cento e vinte e sete anos (1500 – 1627) e divide-se, ao todo, em cinco livros. De todo o modo, a visão do “nacional” e a afeição entusiástica pela terra do “novo mundo”, presenteavam o enfim início de uma postura mais autêntica da literatura brasileira.

Logo, Vicente Salvador não possui somente um valor historiográfico, como também literário. Basta realçar que, por ter sido o “primeiro filho do país” que se dedicou ao gênero referido, foi também o primeiro prosador do Brasil, contendo um estilo pitoresco agradável de ler-se. Utiliza, quase sem precedentes, expressões populares que dão uma pequena amostra das leituras e visões de mundo da época. O autor, ainda, era versado na literatura latina, sagrada e profana, na literatura portuguesa e também sabia espanhol. Quando voltou de Portugal, talvez para imprimir a sua obra, travou relações com o erudito português Manuel Serevim de Faria, franqueando-lhe a sua biblioteca.

Outro nome importantíssimo desse período é o padre Manuel de Morais que, infelizmente, há uma tensão de sua naturalidade; Manuel Bandeira, por exemplo, cita-o como “natural de São Vicente o qual, ao ser expulso do Colégio Jesuíta, embarca para a Europa”; No entanto, Silvio Romero aponta-o como “natural de São Paulo”. De todo o modo, todas as fontes indicam que ele nasceu no Brasil e impulsionou crescimento da literatura, sendo isso que nos interessa.

Varnhagem em “História Geral do Brasil”, a respeito do Padre Manuel de Morais, diz:

                         “Fizera-se calvinista e se casara com mulheres desta seita, pelo que já fora queimado em estátua na Inquisição de Lisboa, no ato de 16 de Abril de 1642: apresentando-se arrependido aos restauradores de Pernambuco, e sendo por estes recomendado à corte, foi condenado a hábito perpétuo, sem remissão com fogos, e suspenso para sempre das ordens, no ato de 15 de dezembro de 1649, em que saíram condenados por judaísmo mais cinco moradores de Pernambuco.”.

De todo modo, sabe-se que escreveu uma “História da América”, a qual foi muito gabada por João de Laet; mas até hoje ainda perdida.

Esses dois primeiros autores citados intercorrem-se no contexto do crescimento do sentimento nacional. Em todos estes fatos, o aspecto “racial” pouco importava. O entrelaço de africanos, indígenas e portugueses, já se tornara uma realidade. Tal interesse, agravando a dramaticidade, expressa uma luta de duas forças antagônicas, combatentes uma à outra, podendo ser consideradas diametralmente inimigas e que, no entanto, julgavam-se aliadas e amigas contra um mal maior. Os dois grandes representantes de ambos os lados são o Padre Antônio Vieira e o poeta Gregório de Matos. E eis que surge, portanto, a Literatura Brasileira propriamente dita.

Gregório de Matos nasceu na Bahia, a 7 de abril de 1623 (Segundo Varnhagen, 1633). Batizou-se no dia 15 do mesmo mês, com o nome de João, que o prelado D. Pedro da Silva Sampaio mudou para “Gregório”. Sua família era muito rica. Seus pais possuíam fazendas e cerca de 130 escravos; viviam largamente. Feitos os primeiros estudos, seguiu o poeta para Coimbra, onde se formou em Direito.

              “Desde então fêz nome como lirista e satírico. Já nesse tempo dizia dele Belchior da Cunha Brochado: ‘Anda aqui um estudante brasileiro tão refinado na sátira, que com suas imagens e seus tropos parece que baila Momo às cançonetas de Apolo.’ Doutorado, partiu Gregório Guerra para Lisboa, onde exerceu a advocacia. Foi ali também juiz do crime e curador de órfãos. Mereceu grande fama como jurista; Com promessa de um lugar na Suplicação, quis o monarca da época enviá-lo ao Rio de Janeiro a devassar dos crimes de Salvador Correia de Sá e Benevides. O poeta rejeitou. Mais tarde decaiu das graças do soberano e retirou-se para o Brasil. Fêz viagem com Tomás Pinto Brandão, bispo da Bahia, que o levou consigo, conferindo-lhe os cargos de vigário-geral com ordens menores e tesoureiro-mor com murça de cônego. Nesse tempo passara-se também para a Bahia o Padre Vieira” (ROMERO, Silvio, em “História da Literatura Brasileira” pág, 374. Ed 6. 1960).

Com isso, há de perceber sua fortíssima importância dando a entender que Gregório de Matos é – ou deveria ser – o fundador da nossa literatura. A base da nossa é o sentimento do brasileiro, como nação à parte, como produto étnico determinado; os elementos são as tradições das três culturas difundidas sem predomínio de alguma sobre a outra; os órgãos seriam os nossos mais notáveis talentos, todos aqueles que se sentiram brasileiros.

Mas a grandeza de Gregório de Matos não para por aí. Apesar de, em sua vida pessoal ter descuidos, o poeta nunca deixou o prazer pela música, o gosto de viver próximo a quem quer que fosse. O lirismo utilizado é simples, espontâneo no fundo, e um pouco alterado pelo cultismo amaneirado da época; Como, por exemplo, nos versos de “A Morte de uma senhora”:

                        “Morreste, ninfa bela,
                         Na florente idade;
                         Nasceste para flor,
                         Como flor acabaste!

                         Viu-te a alva do berço,
                         A véspera no jaspe;
                         Mimo fôste da aurora,
                         E lástima da tarde.

                         O nácar e os alvôres
                         Da tua mocidade,
                         Foram senão mantilhas.
                         Mortalha a teus donaires.”

As sátiras – quase espelhos de sua vida – vingavam-se de tudo e de todos. Fosse contra portugueses e brasileiros, negros e mulatos, brancos que se presumiam de fidalgos, e até os indígenas não foram perdoados.

Não há muito espaço para assinalar muitas descrições de sonetos, mas de todo o modo é percebível, através dessa amostra, um belo lirismo. Naquele tempo não houve outro poeta que se avantajasse, dentre os da língua portuguesa, a Gregório de Matos. O que, não obstante, jamais impediu um contato muito próximo com outros; Manuel Botelho de Oliveira, autor de um poema descritivo intitulado “A Ilha da Maré”; Eusébio de Matos, irmão de Gregório; e os padres Antônio de Sá ficaram conhecidos – assim como disse o Silvio Romero – como o grupo chamado “A Escola Baiana”.

A Escola Baiana não se determinou, propriamente, uma Escola in lato sensu. Mas, os poetas, cronistas e oradores do grupo conseguiram formar, embora as dificuldades da influência do “meio”, uma espécie de organização literária que fortaleceu a cultura e o sentimento nacional de uma forma esplêndida.

Apesar de esse tempo proporcionar grandes autores e o surgimento da literatura brasileira propriamente dita, não foi um século – comparando-o com o anterior – de grandes e memoráveis produções. Houve pouquíssimo crescimento quantitativo e, em suas linhas cronológicas, os autores somem durante anos e só voltam depois de algum tempo. Todavia, foi um momento essencial na Literatura, que não pode ser esquecido ou jogado de lado pela ausência de alguns fatores e momentos memoráveis. Afinal essa é a conjuntura que resplandece o século posterior (XVIII) e o sentimento nacional, naquele momento, aflora-se e cresce de uma maneira jamais vista antes.


Por: Lucas Emmanuel Plaça


História da Literatura Brasileira

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A Literatura

Ao falarmos de “História” remete-se à nossa mente diversas coisas como Política, Filosofia, fatos, guerras, Ciência, etc. Isso porque, numa investigação do histórico, torna-se muito fácil encontrar dados que exemplifiquem a máxima e a conclusão dos acontecimentos. Já quando é pensado pelos historiadores a “História da Literatura”, muitas vezes tende-se a procurar resoluções de efeito, consequência e as conclusões que nela habitam. Como, por exemplo, um “manual de literatura” que indique suas principais características, ou alguma obra poética que possa ser distinguida perante as outras. O que, de certa forma, não está incorreto.

No entanto, para prosseguirmos com os relatos de literatura e sua história, é preciso compreender, de antemão que, a Literatura Universal – enraizada em sua própria estrutura – não se trata de algum “efeito econômico” ou “efeito político” como muito dos historiadores optam por pensar. Que, na verdade, é exatamente o inverso? Quando o leitor se deparar com alguma obra literária – seja por trechos citados por aqui ou pela prática da leitura propriamente dita – perceberá que esse estilo é a expressão da conjuntura individual mediante as diversas convivências explicitadas no todo acontecer.

Isso nos quer dizer que, ao invés de enxergarmos a Literatura como obra econômica ou política – pelo simples fato de irmos contra a própria expressão do que se compreende como literature – temos de vê-la pela sua constituição íntima, pela sua realidade. Ora, podemos explicitar alguma literatura que tenha sido produzida a partir de alguma aspiração política e/ou econômica? Não, pois, não é este estilo que se constituem na sua própria definição. É claro que há relações econômicas e/ou políticas dentro da literatura e que, não obstante, não é o princípio predominante que a impulsiona.

O que veremos a partir destes artigos é que a Literatura não é o efeito de alguma causa externa a ela. A Literatura, na verdade, é a expressão das causas, meios e efeitos que estão apresentadas no conjunto dos indivíduos, seja no âmbito público ou privado, agregando, a partir de toda a experiência humana, a partir das reflexões advindas dos indivíduos, mediante acontecimentos trágicos, dolorosos, difíceis ou felizes, revigorantes e gloriosos, em estruturas estilísticas que estimula seus leitores a apreciarem a realidade em toda a sua estrutura do real.

Daí a importância da Literatura para o estudo da História. Não há como teorizarmos perante fontes reais, mas há como retirarmos de toda a minuciosidade (informalmente falando) – quaseabismal –de uma obra literária, alguma relação real daquele momento que, por muitas vezes, nenhuma fonte primária apresentou.

A Formação da Língua Portuguesa no Brasil

Com a finalidade de absorver o máximo de informações a respeito da nossa língua, necessita-se a princípio dividir a cronologia temporal dos acontecimentos em duas partes. A primeira, definindo-se como “Colonial” e, a segunda, como “Nacional”. Mas, relembremos que, a autonomia que reside na literatura não deve alçar alguma confusão a respeito desta divisão que empregaremos e, a partir disso, pensar numa “literatura colonial propriamente dita” e/ou que a literatura cresceu/evoluiu no período Nacional por caráter político. Tenhamos em mente que não há nenhuma relação até este momento.

Das duas relações iniciais que se emprega na política, a primeira delas está inserida no aspecto da formação desta língua. A segunda, e como veremos de prova de que a política só pode interagir minimamente neste processo formal, se trata do cruzado de elementos silábicos, a formação da gramática, da morfologia e da sintaxe, e até mesmo a fonética e a semântica. Este acontecer da união das diversas línguas Africanas e Indígenas à Portuguesa tem sua corporificação pelas políticas portuguesas e a religião Católica (Jesuítas) e que, por consecutivo, o primórdio linguístico incorporado é de seu pretexto intrínseco. Isto é, por mais que as ações políticas fossem influentes, a formação desta língua do qual falamos e escrevemos não existiria se não fosse o lógico precedente da subsistência normativa de outras línguas.

O professor Sousa da Silveira, em seu trabalho “A Língua Nacional e seu Estudo” esclarece:

                        “Temos de afirmar que a nossa língua nacional é, em substância, a portuguesa, modificada na pronúncia, com leves e pouco numerosas alterações sintáticas, mas copiosamente opulentada no léxico pelas contribuições indígena e africana, e pelos produtos de criação interna.” (apud CARVALHO; NASCIMENTO, 1981, p. 99).

Com isso, obtemos agora uma noção mais ampla da situação inicial da língua portuguesa. A contribuição indígena tem início desde os tempos da colonização, por mediação dos padres catequistas e dos aventureiros que adentravam as florestas. Assim como podemos ver nitidamente nos documentos de Teodoro Sampaio que o “Tupí”, chamado de língua geral indígena, rivalizou com o idioma português por três razões. De todos esses motivosé que o tupí, mesmo vencido, logrou êxito na prevalência dos vocábulos geográficos (Pernambuco, Sergipe, Niterói, Andaraí, etc.), nos nomes próprios de pessoas (Iracema, Jací, Ubirajara, etc), nomes de animais (sabiá, jandaia, embira, jacarandá, mandioca, mandacaru, etc.), de frutos (jenipapo, ingá, araçá, cajá, caju, maracujá, oití, etc.), de comidas (muqueca, tapioca, pipoca, moquém, mocotó, etc.).

A morfologia portuguesa, então, aproveita do Tupí numerosos sufixos: Açú, mirim, rana (que corresponde ao “eidés” grego, significando “semelhante a”), era (“que foi”), tinga (branco), uma (preto), piranga (vermelho), etc. Também, dentro da sintaxe, se encontram vestígios da influência tupí no linguajar da população amazônica, como, por exemplo, a omissão do artigo definido, a palavra “porção” empregada pospositivamente’ como adjetivo, o diminutivo de formas verbais, etc.

Das línguas faladas pelos escravos Africanos – que também eram muitas – o que se predominou foram os vocábulos culinários como “nagô” ou “ioruba”, “quimbundo”, etc. (Curiosamente, o nagô tomou-se muitos termos da culinária – acassá, acará, acarajé, etc – e também do culto fetichista – xamgô, exú, canjerê, orixá, etc). Está registrada mais de 250 palavras do vocabulário aproveitados do “quimbundo” (bengala, marimbau, dengue, camundongo, etc.). Na morfologia, foi-se aproveitado de prefixos no diminutivo como a conjugação fora dos nomes próprios. No entanto, a sintaxe africana foi menos sensível a adentrar a língua portuguesa.

Um dos principais elementos de diferenciação entre português de Portugal e o português do Brasil, está na conservação dos empregos da preposição “em” com verbos de movimento (Vou na cidade); o pronome “lhe” usado como objeto direto (Não lhe vi); o pronome “ele” empregado como objeto direto (Vi ele). Já no campo da fonética as principais diferenciações estão o “e” mudo português que nós não temos; não pronunciamos “âi” o ditongo “ei”, por exemplo. Fazemos ditongo, pela adjunção da vogal “i”, nas vogais tônicas seguidas de “s” ou “z” (Rapaiz’, Luíz’, Atróiz’); alongamos o “i” tônico final da Primeira Pessoa do Singular do Pretérito Perfeito e da Segunda pessoa do Plural no imperativo dos verbos da terceira conjugação.

Isso tudo para que tenhamos uma mínima idéia da complexidade que está integrada na nossa língua. Além do mais, o mesmo objeto pode ser encontrado em denominações diversificadas de lugares, modos, e até dentro das conjugações que são diferenciadas de Portugal.

Investigando o crescimento deste novo linguajar, desta nova variação em sua diversidade linguística, não foi o meio físico brasileiro – isto é, a enorme extensão geográfica cuja ocupação aproximasse com a metade da América do Sul – que impediu a penetração quantitativa desse ligamento dos idiomas. Muito pelo contrário, mesmo pela qual a proporção montanhosa com diversidades físicas e regiões que aparentemente não proveriam de uma unidade nacional, a vulgarização do idioma Português propriamente dito junto com suas ligadas exclamações de outras línguas, definiram, aos poucos, um senso de língua geral, uma nova língua portuguesa.

Sílvio Romero – mesmo reconhecendo a dificuldade da fusão dos três elementos ligados ao idioma – foi o primeiro a tentar uma sistematização dos estudos sobre a literatura popular que, aos poucos, estava crescente. Dividindo-as por quatro categorias: 1 – Romances e xácaras; 2 – Reisados e cheganças; 3 – Orações e parlendas; 4 – Versos gerais ou quadrinhas. Todos eles enraizados nas fontes portuguesas, americanas, africanas e por fim mestiças. Isso, por sua vez, tratando-se da formação literária propriamente dita, estará mais detalhado posteriormente.

Século XVI (Período Colonial)

Uma das características mais fundamentais da Literatura, já pontuada precedentemente, se trata de sua exposição da realidade pela estilística da língua, cativando e clamando o leitor para apreciar seu contexto. A primeira que temos o dever de conhecer é a famosa “Carta de Pero Vaz Caminha” escrita em 26 de abril, datada em01 de maio, de 1500. Também conhecida e considerada como “a certidão de nascimento do Brasil”, expressa a chegada dos Portugueses na America do Sul, Brasil, junto com toda a apreciação sentida por eles perante o povo nas margens da praia. Aquela impressão sentida confirma-se em 1531 no Diário de Pero Lopes de Sousa:

                      “A gente deste rio (Rio de Janeiro) é como a da Baía de todolos Santos; senão quanto é mais gentil gente. A esses e outro homens que aqui passaram no século do descobrimento a terra aparecia graciosa e rica: tão natural e favorável aos estranhos que a todos agasalha e convida (Pero de Magalhães Gandavo); Capaz para se edificar nela um grande império (Gabriel Soares de Sousa); tão temperada e conforme para a humana natureza, que bem se puderam largar as outras duas temperadas pelas incomodidades das injúrias que nelas faz a mudança dos tempos.” (apud BANDERIA, Manuel. 1940, p.268).

Voltando à Carta de Caminha, Pero Vaz Caminha procurou expressar a aparência daquele desconhecido povo (índios) e a própria terra, como, por exemplo, nas afirmações “a terra tem muito bons ares e os índios de bons rostos e bons narizes, bem feitos”. Destes pequenos trechos, é evidente de que os Portugueses estavam admirados – e não surpresos – com o que viam e que, não há evidências até aqui, como muitos historiadores tem a paixão de pontuar, que os Europeus se impressionavam fácil com o “novo”. A respeito disso, não há como aprofundarmos este assunto aqui, nos aspectos da Literatura em geral.

Nesse Século, tivemos grandes escritores que se preocuparam com aquele tempo e situação do descobrimento, como Gandavo, Fernão Cardim, Gabriel Soares de Sousa e o autorAmbrósio Fernandes Brandão dos “Diálogos das Grandezas do Brasil” (atento-me ao autor Ambrósio Fernandes, pois ainda circula aquela discussão sobre quem escreveu esses diálogos).

Um dos primeiros e importantes escritores que compreendiam a necessidade de espalhar a notícia a Portugal, confirmando de que as terras eram de ótima qualidade, Pero de Magalhães Gândavo (1540 – 1580) é autor do famoso livro "História da Província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil", editado em Lisboa, por Antônio Gonçalves, em 1576. Gândavo escrevera anteriormente o "Tratado da Terra do Brasil" (conhecido hoje na edição de Emmanuel Pereira Filho) e o Tratado da Província do Brasil. Os dois textos foram reunidos mais tarde, dando origem à História da Província de Santa Cruz.

                   “Minha intenção não foi senão denunciar em breves palavras a fertilidade e abundância da terra do Brasil, para que esta fama venha à notícia de muitas pessoas que nestes Reinos vivem com pobreza, e não duvidem escolhê-la para seu remédio”. (GANDAVO, Pero de Magalhães. 1576, em Tratado da Província do Brasil, prólogo).

O padre jesuíta Fernão Cardim (1540 – 1625), que escreve em 1583 a “Narrativa epistolar de uma viagem a Baía, Rio, Pernambuco”, fora outros escritos como “Do princípio e origem dos índios do Brasil”, evidencia a partir deles informações sobre as condições de vida na colônia, mostrava-se sensível ao encanto da natureza brasileira descritas com um viés Pitoresco (idéia estética crescente do Romantismo) e Realista. Podemos enxergar, através de Fernão Cardim (apud BANDEIRA, Manuel, 1940, p. 269) que o Brasil tinha “uns dias formosíssimos, tão aprazíveis e salutíferos que parece que estão os corpos bebendo vida. Tudo são serranias e rochedos espantosos...”.

Destarte, podemos descortinar que, mesmo existindo aquela impressão de que a Literatura se trata apenas de alguma ficção, através de Fernão Cardim e Pero de Magalhães é evidente de que se trata de algo muito maior e profundo ao buscarem a realidade natural do Brasil.

Outro precursor importantíssimo deste período, o autor do “Tratado descritivo do Brasil” (1587), Gabriel Soares de Sousa, reproduz num largo delineamento a fertilidade grandiosa das terras brasileiras através de uma autorização vinda da Corte de Madrid para adentrar uma exploração minuciosa no interior do Brasil, no intuito de repassar certeza no cultuo de uma terra estonteante.

A Companhia de Jesus, que desempenhou um papel importante nas colônias, foi uma das ordens religiosas Católicas vindas ao Brasil como elemento moralizador e educador (Veja mais nos artigos “História da Educação Brasileira” cuja catalogação é mais profunda). Para que eles pudessem realizar a catequização, precedentemente tinham de alcançar a língua Indígena, compreendê-la e abarca-la dentro de algum manual com a finalidade de conseguir abrir algum diálogo mais profundo. Em função disso, os Jesuítas foram os pioneiros essenciais na classificação escrita das línguas indígenas e que, também por consequência, os historiadores recorrem até hoje aos trabalhos jesuíticos para conseguir considerar de forma mais clara e diversificada os próprios índios. Dentre eles, o padre José de Anchieta (1534 – 1597) é o mais notável. Quando o padre Manuel da Nóbrega enviou-o para São Vicente – para ensinar as primeiras letras aos filhos dos reinóis – percebe-se, dentro de toda aquela iniciativa, a necessidade e a conclusão lógica de entender e falar o Tupí com perfeição, realizando, por fim, a tradução do Catecismo ao novo idioma.

Com os notáveis lirismos de Anchieta, o padre Serafim Leite, em sua obra imperdível “História da Companhia de Jesus” transcreve-as comentando que “elas unem ao pensamento teológico da graça uma sugestão de eucarística do mais puro lirismo”:

                     “Cordeirinha linda,
                      Como folga o povo,
                      Porque vossa vinda
                      Lhe dá lume novo.” (Unção de pensamento para Santa Inês).

Aprofundando-se no padre Anchieta, é percebível em suas cartas – escritas em latim – sua relevância ao descrever e distinguir a fauna, a flora e a etnologia brasileira. Manuel da Nóbrega, ainda ao lado dele, foi um dos principais a assinalar o estudo do Tupí, para o qual verteu trechos da Bíblia, artigos da Fé, orações, entre as quais o Pai-Nosso.

Há ainda Bento Teixeira que, por investigações históricas realizadas, remete-se a pensar que seja o “Primeiro Poeta filho do Brasil”, assim como oferecido no prólogo de um poema de Jorge de Albuquerque. O que, não obstante, ainda carece de dúvidas perante a documentação de Rodolfo Garcia, historiador, assinalado em “Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil” (Denunciações de Pernambuco), que dizia não haver algum Bento Teixeira instruído e capaz de escrever um poema em Pernambuco naquele tempo e que o “verdadeiro” Bento Teixeira apenas lecionava.

Com isso, podemos situar a seguinte proposição: Necessitamos de uma investigação histórico-documental para desvendar o desaparecimento de fontes confiáveis que, feito isso, nosso horizonte de possibilidades historiográficas a respeito da Literatura no tempo da Colônia se estenderá proporcionalmente. O autor de “Diálogos das Grandezas do Brasil”, as inexatidões de Bento Teixeira, o imbróglio da linguagem indígena e seus idiomas diversificados, etc. Os historiadores e antropólogos Europeus, por exemplo, efetivam e ainda fazem esforços sobre-humanos para desvendar sua percepção do passado e encontrar documentações e fontes originais. No Brasil, porém, as maiorias dos historiadores ainda estão viciadas no veneno da “Historiografia Universitária”, barrada por interesses políticos e aspirações meramente superficiais de credo ideológico...

Só assim para termos uma leve noção da complexidade que se atua na História atual, cujo preceito mais importante, como a de buscar o máximo da realidade histórica de nossos primórdios junto com a ilustre Literatura, é barrado por funções anti-gnose’s.


Por: Lucas Emmanuel Plaça